17 de agosto de 2009

Probióticos no mercado, o que você come e por que?

Se você acha que bactérias são seres vivos malignos, que só servem pra causar doenças e infecções, e apodrecer coisas, e que se você levar uma vida limpa, cheia de cuidados e paranóia você estará livre delas, saiba que você está redondamente enganado.
A microbiota bacteriana é parte fundamental do nosso organismo, e todos nós somos um imenso habitat para uma grande variedade das mesmas. Essa relação normalmente é equilibrada, mas durante nossa vida ocorrem pequenos desequilíbrios, devido à vários fatores, e estes podem causar algumas doenças oportunistas.
Algumas espécies que nos habitam, são tão importantes para um bom funcionamento do organismo, que se tornaram alvo de pesquisas e também obviamente do interesse das indústrias alimentícia e farmacêutica.

Lactobacillus spp

Estas são os chamados, microrganismos
probióticos. Existem vários conceitos para se definir um probiótico, mas todos eles apontam para uma característica fundamental, "a capacidade de trazer algum benefício ao hospedeiro, enquanto presente no mesmo", e estes podem ser os mais variados possíveis.
Para citar alguns exemplos temos, a melhora da capacidade de absorção de nutrientes no intestino, a produção de alguns nutrientes, atividade anti-microbiana contra possíveis patógenos (seja esta por meio de substâncias produzidas pelo microrganismo, ou por meio de competição), estimulação do sistema imune do hospedeiro e até mesmo atividade anti-carcinogênica.
Desta forma, vários produtos hoje no mercado contêm bactérias ativas (ou só dizem que têm), que são capazes de colonizar, mesmo que por um período determinado de tempo, o trato intestinal de humanos, e desta forma nos trazer alguns desses benefícios que eu citei, ou outros.
O objetivo desse post foi reunir alguns produtos que estão no mercado brasileiro, e relacioná-los à sua espécie de probiótico, porque informação sobre o que estamos ingerindo nunca é demais, não é mesmo?



- Leite fermentado Yakult

O produto é o mais antigo no mercado, criado em 1935 no Japão, pelo Dr. Minoru Shirota, que também foi quem conseguiu isolar a linhagem de
Lactobacillus (gênero de bactérias láticas) utilizado até hoje na sua produção. Tal espécie é a Lactobacillus casei Shirota e sua principal atividade no intestino humano é evitar o crescimento de bactérias nocivas, deixando a microbiota mais equilibrada.
O Yakult foi de grande importância na época, no combate a infecções intestinais, muito comuns em crianças no Japão, resultando em uma diminuição na mortalidade infantil.

- Leite Fermentado Chamyto (Nestlé)

Contém duas espécies diferentes de bactérias láticas,
Lactobacillus johnsonii e Lactobacillus helveticus. A primeira possui uma grande variedade de prováveis efeitos probióticos, entre eles uma alta capacidade de evitar úlceras estomacais causadas por outra bactéria a Helicobacter pylori. Já a segunda é utilizada na fabricação de vários tipos de queijo, e existem estudos que relacionam sua ingestão juntamente com leite fermentado com uma redução da pressão arterial, mas também existem estudos contradizendo tal propriedade.

- Leite Fermentado Parmalat

Contém três espécies de bactérias, sendo duas láticas propriamente ditas e outra somente pelas suas caracteristicas metabólicas que são:
Lactobacillus casei, Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium lactis. L. acidophilus é comumente utilizada como probiótico pois produz vitamina K, lactase (digere a lactose), além de compostos anti-microbianos. Já B. lactis, também classificada como B. animalis lactis, tem de acordo com alguns estudos ação sobre o transito intestinal.

- Leite Fermentado Aromatizado Batavito (Batavo)

Contém somente
L. casei na sua composição.

- Iogurte Biofibras (Batavo)

Contém
B. lactis e L. acidophilus

- Iogurte Activia (Danone)

Esse é um caso interessante, a Danone se apropriou de vários nomes (um para cada país diferente) para suas bactérias, que no Brasil são conhecidas como Bacillus danregularis, o que na verdade não passa de
B. lactis


Esses são os principais produtos que encontrei, todos como puderam notar são laticínios, existem também outras marcas e outras bactérias que poderiam ser citadas, mas preferi me limitar as principais
.
Lembrando também, que normalmente tais produtos já vem na dose diária recomendada, e não adianta se entupir com eles que o efeito não será melhor, podendo ser até pior (que tal uma baita diarréia?).
Uma alimentação saudável e rica em fibras também ajuda, já que as bactérias probióticas tem que se alimentar de alguma coisa, e é você quem fornece, são os chamados prebióticos.
É importante lembrar que existe um numero mínimo de bactérias necessárias de serem ingeridas vivas, para que os microrganismos consigam passar pelo ambiente ácido do estômago e atinjam o intestino, onde exercerão seus papéis probióticos. E esse numero decresce conforme o tempo que o produto fica em armazenamento (resfriado a 4ºC), ou seja, conforme o tempo vai passando o produto vai perdendo sua propriedade.
CONFIRAM AS DATAS DE VALIDADE E FABRICAÇÃO! E bom proveito!



Leia mais em: Aspectos tecnológicos de alimentos funcionais contendo probióticos


11 de agosto de 2009

Processo enzimático na reciclagem de papel - uma alternativa inteligente


Biotecnologia tira tinta de papéis velhos para reciclagem

Redação do Site Inovação Tecnológica - 02/09/2008

Reciclar papéis em escala industrial não é uma tarefa tão simples quanto alguns programas educativos ingenuamente deixam transparecer. Para que os papéis reciclados possam competir de igual para igual com o material novo há um grande desafio a ser vencido: retirar a tinta de impressão dos papéis velhos.

O processo atualmente disponível para retirar essa tinta envolve o uso de grandes quantidades de produtos químicos que, além de serem caros, são altamente danosos ao meio ambiente, um fator que pode simplesmente anular os ganhos com a própria reciclagem.

Tratamento enzimático

Mas os dois problemas podem estar com seus dias contados. Cientistas da Universidade da Malásia descobriram que um processo biológico poderá baratear o processo de retirada da tinta dos papéis velhos, incentivando a reciclagem, e minimizar o impacto ambiental dessa reciclagem.

A tecnologia ambientalmente correta se baseia no uso de enzimas, que são moléculas biológicas. O tratamento enzimático é mais eficiente do que o processo químico, retirando uma maior quantidade de tinta do papel usado, e não afeta as propriedades físicas do papel.

As enzimas foram preparadas com a produção do Bacillus licheniformis BL- P7 em um meio de cultura líquido contendo palha de arroz e restos de fécula.

O processo de retirada da tinta das fibras do papel é facilitado pela modificação enzimática das superfícies das fibras. Isso permite também a retirada de grandes partículas de tinta, que normalmente não são atingidas pelo tratamento químico.



Resultados e Discussão:

Dei uma pesquisada por aí sobre esse método que sinceramente nunca tinha ouvido falar, e achei importante divulgar um tecnologia, mesmo que ela já venha sendo utilizada na industria de reciclagem a algum tempo.

As vantagens da processo de retirada da tinta por processos enzimáticos não se restringe unicamente à uma maior eficiência e menor impacto ambiental, podemos citar também uma redução nos custos, nos gastos energéticos e algumas vantagens operacionais, já que o processo agride muito menos os equipamentos.

Pessoalmente gosto muito da aparência de um papel reciclado, mas é inegável que seu uso é restrito a algumas atividades que demandam uma aparência mais rústica e artística, uma melhora de qualidade do mesmo com certeza o tornaria mais competitivo, mas sempre se aliando a um preço mais acessível também obviamente.

Pelo que pude perceber existem várias enzimas atualmente no mercado, e todas possuem eficiência diferentes no que se trata á vários aspectos do papel, já que as enzimas que fazem tal trabalho são Celulases (degradam celulose, material do qual o papel é feito) ou semelhantes, o papel reciclado pode apresentar uma perda de sua integridade e rigidez devido a perda de qualidade de suas fibras.

Ao que me parece, as industrias têm buscado novas enzimas, ou misturas das mesmas afim de otimizar o processo, e isso logicamente, tem incentivado muito a pesquisa neste campo.

PS: Leiam o post do Átila (@oatila) no blog Rainha Vermelha sobre o jornalismo científico e depois testem a mesma coisa sobre este assunto. Digitem qualquer parte da matéria no Google e verão a quantidade de matérias que simplesmente traduziram o release (inclusive esta que postei aqui).

Leia mais em:

Preliminary studies of enzymatic deinking

EDT - Enzymatic Deinking Technologies

8 de agosto de 2009

Não basta produzir!

Biodiesel ocioso na UE

(Do portal energiahoje.com)

A capacidade de produção de biodiesel na União Europeia deverá aumentar 30,6%, de 16 bilhões de litros em 2008 para 20,9 bilhões de litros em 2009. Se depender dos recentes resultados da produção do biocombustível no bloco, divulgados pelo Comitê Europeu de Biodiesel (EBB), a produção deverá ficar bem abaixo daquilo que pode ser produzido. Em 2008, a produção respondeu por 48% da capacidade instalada da UE.

A ociosidade já vinha aumentando desde 2007, quando a produção respondeu por 55% da capacidade instalada do bloco, contra 80% em 2006. Segundo o EBB, o aumento na capacidade ociosa nos últimos anos pode impedir que o bloco alcance a meta de ter 10% de biocombustíveis no consumo de combustíveis para transportes até 2020.

Apesar do aumento na capacidade ociosa, a produção da UE cresceu 35,7% em 2008, em, comparação com 2007. Ao todo, foram produzidos 7,7 bilhões de litros, 1,81 bilhão de litros vindos da França, a segunda maior produtora do bloco.

Os franceses encerraram 2008 com uma produção quase duas vezes maior que a de 2007. Já a produção da Alemanha, a maior produtora da UE, caiu 2,5%, para 2,82 bilhões de litros. Terceira colocada, a Itália produziu 595 milhões de litros, alta de 64%.

O biodiesel respondeu por 78% dos biocombustíveis consumidos pelo bloco no ano.


Plantação de Colza


Resultados e Discussão:

Esses numeros são do meu ponto de vista positivos por um lado, mas por outro mostram o quão equivocada pode estar a política da produção dos biocombustíveis. E quanto a isso o título do post é claro: "Não basta produzir!" é preciso também incentivar o consumo, em detrimento dos derivados de petróleo, incentivar também o aperfeiçoamento e barateamento das tecnologias de transporte e energia que consomem biocombustíveis.

O que vejo são políticas de produção soltas ao vento, que tem sua base na demanda da moda ambientalista.

Se assim como no Brasil, o biodiesel europeu também é adicionado ao Diesel mineral, não é tão difícil se ter uma estimativa do consumo durante um determinado período de tempo. Então o que está acontecendo? Porque toda essa ociosidade dos produtores? Investimento mal planejado? Será que o fato da produção de Biodiesel lá (proveniente principalmente da colza) ser duas vezes mais custosa do que a do Diesel mineral tem algo a ver com isso?

6 de agosto de 2009

Humor e ciência! Nem tudo está perdido...

As vezes é preciso lembrar que a ciência é feita por seres humanos como todos nós, e como a formalidade do ambiente acadêmico é a face mais vista pelas pessoas (inclusive as que trabalham no meio) as vezes é muito bom e intrigante ver certas situações em que o lado humano bem-humorado aparece.

E isso não é importante apenas para nos libertarmos um pouco do "mito do cientista maluco", que retrata o praticante da ciência como um ser alienado do mundo e das relações sociais. Mas também o é a partir do ponto que ajuda a divulgar e a popularizar a ciência, de uma forma engraçada e bem-humorada, um dos grandes desafios pra qualquer educador do mundo.

Resolvi fazer esse post retratando uma pequena amostra do que tenho visto pela internet.

Já falei aqui no blog sobre o site PhdComics, esse site é idealizado por Jorge G. Cham, Phd em engenharia mecânica pela Universidade de Stanford (EUA), e trata de uma forma cômica e ligeiramente ácida os principais temas que envolvem a vida de um estudante que pretende seguir carreira acadêmica. O engraçado é que as "tirinhas" desenhadas pelo autor do site são universais e abordam temas que podem ser aplicados em qualquer nível das relações profissionais e/ou acadêmicas.

"Eu tenho tanta coisa para fazer amanhã. Eu preciso dormir. Que horas são? Puxa vida, porque eu não consigo dormir?"
"No dia seguinte:"


Abordando temas como a relação orientador/orientado, a relevância dos trabalhos científicos e das teses, as crises existenciais e a relação da mídia com a ciência, a leitura leva a qualquer um que tenha passado por situações minimamente semelhantes a boas gargalhadas.

Mas o interessante é que o humor na ciência não se restringe ao humor inteligente e ácido, temos como exemplo um vídeo que vi outro dia após receber o link pelo Twitter.



Esse é um exemplo clássico de humor pastelão, muito bem feito e idealizado, e pra qualquer um que saiba o que é um PCR (reação em cadeia da polimerase) é de se urinar de rir, os dois vídeos me parecem ser propagandas da Bio-Rad Laboratories, que fornece produtos como o termociclador (maquina que aparece no primeiro vídeo) que é reponsável basicamente por fazer as mudanças de temperatura necessárias á uma reação de PCR.

E claro não poderia deixar de fora meu formato de comédia predileto, o stand-up comedy (ou comédia em pé) e acabei achando sem querer os vídeos desse cara chamado Brian Malow. Que fiz questão de aprender de ultima hora a legendar um vídeo e postar no blog (de nada).


video

Esse é só um pequeno exemplo, se gostaram procurem por mais vídeos dele no YouTube, mas infelizmente não encontrei nenhum legendado.

Sim.. o mundo é cômico!

1 de agosto de 2009

O chá verde e o HIV.

Várias vezes, pelos blogs científicos que acompanho vejo pessoas, pouco informadas diga-se de passagem, que insistem em dizer que as pesquisas na área da busca de novos fármacos são totalmente controladas pela industria farmacêutica, e que esta impede a qualquer custo o desenvolvimento de qualquer pesquisa que possa ter sua origem em produtos naturais, baratos e de fácil acesso ao público, tudo em nome do lucro.

Esse é um exemplo de que, se isso realmente acontece, não é a regra.

Pesquisadores do Bayor College of Medicine em Houston no Texas (EUA), trabalham arduamente e já publicaram vários artigos relacionando um dos principais ativos do chá verde com o tratamento da infecção por HIV-1.

O chá verde já foi relatado como um eficiente anti-oxidante, anti-inflamatório, anti-alérgico, anti-histamínicos, anti-tumorais e anti-virais (ufa!).

Camellia sinensis (Chá Verde)

A Epigalocatequinagalato (EGCG) faz parte do grupo dos polifenóis juntamente com as teaflavinas substâncias comuns ao chá verde e ao chá preto. E se difere de outras catequinas por possuir grupos químicos adicionais em sua estrutura, e esses são determinante para sua propriedade terapêutica.

Por meio de células brancas do sangue (principal alvo do vírus) cultivadas, na presença de vários subtipos de HIV-1 e em várias concentrações diferentes de EGCG, foi possível perceber que em concentrações relativamente baixas da substância, ocorre uma inibição da replicação do vírus comparável àquela observada com a utilização das drogas utilizadas atualmente (Ritonavir e AZT).

Tabela que compara a eficácia do EGCG na replicação do HIV-1 em diferentes concentrações e
com o Ritonavir

Os pesquisadores atribuíram tal fenômeno à capacidade da EGCG se ligar ao receptor CD4 das células do sistema imune, que é a via de infecção do vírus HIV-1 que precisa estar dentro da célula para se replicar e infectar outras células. Seria como, se quando o vírus procurasse a porta de entrada ela já estivesse ocupada.

HIV-1 atacando um linfócito-T

A pesquisa ainda está em fase de testes in vitro e precisa obviamente de outros estudos que possam não só comprovar sua eficácia como também determinar as concentrações ideais do EGCG para atuar, além de estudar sua farmacocinética, ou seja, como a substancia interage com o corpo humano. E algumas dessas já estão em andamento.

Leia mais em:
- Preclinical development of the green tea catechin, epigallocatechin gallate, as an HIV-1 therapy
- Inhibition of HIV-1 infectivity across subtypes by the green tea catechin, epigallocatechin gallate, without altered immune function